terça-feira, 28 de Outubro de 2014

simplesmente

o corpo quieto
e o olhar no horizonte
dir-se-ia que adivinho o novo dia
e que é em direcção ao futuro que se move
o pensamento

sim
porque até é vasto o oceano
e o céu sem fim

e no entanto
simplesmente
morro em mim

segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

No mais perfeito silêncio

No mais perfeito silêncio
aguardo as palavras perfeitas
que me falem só a mim…

…no mais perfeito silêncio
não parecem haver palavras assim.

domingo, 26 de Outubro de 2014

sábado, 25 de Outubro de 2014

e nada mais

mais um dia
e mais nada
ou antes
fosse só nada

e não mais
um outro dia
igual
a outro dia

só mais um
dia só
e mais nada

só mais uma
vez só
e nada mais


sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

que me chamem por todos os nomes

que me chamem por todos os nomes
que não o meu
e que me soe tão estranho isso
que é como se o meu reflexo no espelho
não me mostrasse como sou por dentro

que a qualquer distância que se interponha
entre mim e outra pele
até as mãos entrelaçadas
se pareçam com os ramos de uma árvore morta
tentando em vão agarrar o vento

que em cada olhar que olho directamente
só veja reflectido
nada mais que o desejo
que vive escondido no fundo de um vasto oceano
preso dentro de uma esperança naufragada

que tudo isto seja assim
apesar de tudo quanto me dizem
todos quantos me dizem
que o meu nome é um nome
que não é o meu
- eu não consigo ainda deixar de ser eu

quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

as minhas mãos medem a distância infinda

as minhas mãos medem a distância infinda
entre os sonhos e o nada
e por entre os dedos
uma madeixa de cabelos
ou a ilusão deles
inacabada

quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Há dias em que lhes ouço ainda as vozes

Há dias em que lhes ouço ainda as vozes,
mas já sem a doçura de outrora,
já sem o encanto que, em outros dias,
me trazia vida à vida e me enchia de luz os sonhos
até ao romper da aurora.

Hoje, a vida vive-se num mar de silêncio,
sem que som nenhum inquiete
o som que soa ainda aqui dentro.

terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Um dia depois de acordar - 11

Tendo-se esgotado o calor do café todo o mundo se tornou subitamente incrivelmente inóspito e o enregelar de todos os sentidos fez com que se precipitasse o regresso do pensamento até junto do mar. Mas ali chegado imediatamente se perdeu ao não conseguir encontrar o resto de si.

Perdeu-se sem que ninguém o conhecesse e sem que ninguém o lembrasse.

Na verdade nunca existiu.

Um dia depois de acordar - 10

Antes de voltar para junto do mar o pensamento questionou-se mais uma vez se haveria uma lei que ditasse estes naufrágios ou o livre curso sobre o mar. Por entre todos os enganos que sabia existir por trás dos muros e das janelas e com os quais se cruzava ao deambular pelas ruas e vielas da cidade haveriam decerto desenganos também. Haveriam aqueles próprios dos que viviam na certeza do que é certo e haveriam aqueles próprios dos que viviam na certeza do que é incerto.

Mas talvez nada disso importe ao pensamento tal como nada disso importa ao pequeno veleiro que talvez navegue ainda ou naufragou já para lá do cabo. Seja tudo um acaso ou existam leis que rejam a nossa existência é muito provável que nem um nem outro se importem com os humanos ou qualquer outros. A nós dói-nos a consciência disso mesmo e por isso nos tornamos demasiadas vezes incapazes de conciliar os nossos desejos com a realidade. E o que sabemos nós da realidade? Nada. Sabemos o que sentimos e demasiadas vezes somos também incapazes de lidar com isso.

É por isto que o que sentimos em relação a alguém vale pouco quando não o fazemos sentir também. É por isto que demasiadas portas e janelas são muros entre as vidas de ninguém. Se fôssemos o pequeno veleiro seria nula para nós a importância do mar e vice versa. Mas como humanos julgar que amamos sem o fazer transparecer é tão só o mais egoísta dos enganos.

sábado, 18 de Outubro de 2014

Um dia depois de acordar - 9

Angústia. Angústia desesperante foi o sentimento a que se votou o pensamento ao saber-se perdido naquela cidade onde nenhuma janela e nenhuma porta servia de vão para ninguém. Naquela cidade todas as camas tinham só almofadas de ventos errados. E que fatalidade o rumo de tais pensamentos ter de por ali passar e possivelmente nunca mais se conseguir encontrar. Tudo naquela cidade não era mais do que paredes e muros e espaço vazio sobre as coberturas para uma alma e um pensamento já vencidos pelo frio.

À cidade falta o sal do mar e o cheiro dos pinheiros. Tudo o que lá existe é a memória de amar.

É o grande problema que a memória impõe a um pensamento ferido já de morte pelo frio. Sob o sua acção todo o tempo passado fica cristalizado com tanto de cristalino e impuro como de cortante. E quanto mais cristalinas as lembranças maior o dano que elas podem causar. É que em tudo a memória é como o mar e a recordação nada mais é do que o reviver do navegar ou do naufragar.