quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

as minhas mãos medem a distância infinda

as minhas mãos medem a distância infinda
entre os sonhos e o nada
e por entre os dedos
uma madeixa de cabelos
ou a ilusão deles
inacabada

quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Há dias em que lhes ouço ainda as vozes

Há dias em que lhes ouço ainda as vozes,
mas já sem a doçura de outrora,
já sem o encanto que, em outros dias,
me trazia vida à vida e me enchia de luz os sonhos
até ao romper da aurora.

Hoje, a vida vive-se num mar de silêncio,
sem que som nenhum inquiete
o som que soa ainda aqui dentro.

terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Um dia depois de acordar - 11

Tendo-se esgotado o calor do café todo o mundo se tornou subitamente incrivelmente inóspito e o enregelar de todos os sentidos fez com que se precipitasse o regresso do pensamento até junto do mar. Mas ali chegado imediatamente se perdeu ao não conseguir encontrar o resto de si.

Perdeu-se sem que ninguém o conhecesse e sem que ninguém o lembrasse.

Na verdade nunca existiu.

Um dia depois de acordar - 10

Antes de voltar para junto do mar o pensamento questionou-se mais uma vez se haveria uma lei que ditasse estes naufrágios ou o livre curso sobre o mar. Por entre todos os enganos que sabia existir por trás dos muros e das janelas e com os quais se cruzava ao deambular pelas ruas e vielas da cidade haveriam decerto desenganos também. Haveriam aqueles próprios dos que viviam na certeza do que é certo e haveriam aqueles próprios dos que viviam na certeza do que é incerto.

Mas talvez nada disso importe ao pensamento tal como nada disso importa ao pequeno veleiro que talvez navegue ainda ou naufragou já para lá do cabo. Seja tudo um acaso ou existam leis que rejam a nossa existência é muito provável que nem um nem outro se importem com os humanos ou qualquer outros. A nós dói-nos a consciência disso mesmo e por isso nos tornamos demasiadas vezes incapazes de conciliar os nossos desejos com a realidade. E o que sabemos nós da realidade? Nada. Sabemos o que sentimos e demasiadas vezes somos também incapazes de lidar com isso.

É por isto que o que sentimos em relação a alguém vale pouco quando não o fazemos sentir também. É por isto que demasiadas portas e janelas são muros entre as vidas de ninguém. Se fôssemos o pequeno veleiro seria nula para nós a importância do mar e vice versa. Mas como humanos julgar que amamos sem o fazer transparecer é tão só o mais egoísta dos enganos.

sábado, 18 de Outubro de 2014

Um dia depois de acordar - 9

Angústia. Angústia desesperante foi o sentimento a que se votou o pensamento ao saber-se perdido naquela cidade onde nenhuma janela e nenhuma porta servia de vão para ninguém. Naquela cidade todas as camas tinham só almofadas de ventos errados. E que fatalidade o rumo de tais pensamentos ter de por ali passar e possivelmente nunca mais se conseguir encontrar. Tudo naquela cidade não era mais do que paredes e muros e espaço vazio sobre as coberturas para uma alma e um pensamento já vencidos pelo frio.

À cidade falta o sal do mar e o cheiro dos pinheiros. Tudo o que lá existe é a memória de amar.

É o grande problema que a memória impõe a um pensamento ferido já de morte pelo frio. Sob o sua acção todo o tempo passado fica cristalizado com tanto de cristalino e impuro como de cortante. E quanto mais cristalinas as lembranças maior o dano que elas podem causar. É que em tudo a memória é como o mar e a recordação nada mais é do que o reviver do navegar ou do naufragar.

Um dia depois de acordar - 8

Ali sentindo um frio desmesurado sob a acção do sol este pensamento por si só tinha o condão de queimar a alma por dentro como se de neve se tratasse. Era como se do mar o vento que viesse fosse gélido como o ártico. Os sentimentos que nascem e crescem dentro de nós e as sensações que nos impõem nem sempre fazem brotar o que de melhor nós temos para dar e para ser. Bem apropriado à circunstância dos vivos desejar-se um desejo só daquilo que nos torna melhores tem tanto de maravilhoso como de cruel. Talvez quando todos os outros desejos se saciassem e se esgotassem só este continuaria para sempre até ao fim como se de uma satisfação permanente se tratasse.

Mas ali sentado olhando o céu e o mar consumindo e batalhando a montanha e o areal percebia-se perfeitamente quão inglória era a busca pela satisfação. Simplesmente não é possível adivinhar o quê ou quem nos fará sentir felizes. Tudo quanto fazemos nas nossas vidas só a isso se deve. Vivemos uma ânsia pela felicidade que julgamos poder encontrar fora ou dentro de nós mas que fim não passa disso mesmo… de uma ânsia.

E olhando o pequeno veleiro que desaparecia na distância por trás do promontório percebia-se também que toda as acções no sentido de atrair o quê ou o quem que nos fizesse ser e sentir melhores não passavam de pedras que atirássemos ao mar na esperança de acertar numa pérola. Desde a linha do horizonte o pensamento fugiu acelerado pela calçada acima passando pela casa de pedra em direcção à cidade onde tantos no pleno da sua fealdade aleatoriamente arrecadavam mais ou menos momentos de felicidade do que outros tantos que viviam com a sua sublime beleza exposta.

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

Um dia depois de acordar - 7

Vistos daquele frio banco de pedra o céu e o mar apresentavam-se como se fossem âmbulas de uma espécie de universo humano simbolizando o infinito e o profundo desconhecidos. Nunca se sabendo exactamente aquilo que se sabe todas as importâncias e todas as medidas se relativizam. Talvez até os valores sejam relativos quando vistos a partir daquele banco frio explicando assim a total e aparente falta de interesse votada pelo pequeno veleiro às injustiças próprias do mundo dos vivos.

Quando tudo o que se deseja é viver a vida no pleno gozo de tudo o que nos sabe bem há sempre algo que falha. Há sempre muito que falha. Só assim se percebe o porquê de se passar frio num dia de calor vendo no mar tudo aquilo que nunca conheceremos acerca de nós próprios e no céu tudo aquilo que nunca conheceremos sobre o mundo que nos rodeia. E entretanto o pequeno veleiro continuava a cortar as águas completamente alheado destas frustrações e perfeitamente imune ao frio daquele dia quente em rumo a um qualquer sítio do seu mundo.

Que importância terá o que sentimos para aquilo que somos? Para aquele que somos? Que outras sensações para além do calor do café ou do frio do vento ou do sal da água reposicionariam o nosso pensamento? Que outras sensações fariam crescer em nós um melhor sentimento?

Um dia depois de acordar - 6

Há no topo da falésia um afloramento rochoso que serve de banco a todos aqueles que ao longo dos séculos ali se quiseram deter para ver o areal no seu jogo quase eterno com o mar. Trazidas pelo vento vinham pelo ar milhões de minúsculas gotas de água salgada que salpicavam a cara de forma muito agradável nos dias quentes de Verão. E nos dias de Inverno o mar vinha envolto de chuva que sob a acção do fustigar severo do vento ensinava o quanto a beleza de um temporal se pode revelar fatal. Mas aquele dia era só mais um dia frio e esse frio vinha só do interior. Aquele dia trazia uma alma fria apesar do calor.

Lá em baixo o pequeno veleiro cruzava lentamente as águas rasgando as ondas à medida que avançava. Todo ele uma prisão quase humana. As mil variações do vento e do mar e a necessária atenção às escotas e às alantas eram como que uma metáfora da vida humana feliz e emaranhada nas suas próprias amarras incorpóreas. Navegar e naufragar eram afinal só verbos do mesmo mar.

Do topo da falésia poder-se-ia dizer que a gravidade atraía o olhar para baixo da própria quilha do veleiro. De facto o olhar era puxado de forma violenta para o fundo de tudo. E sobre fundo e sobre tudo poder-se-ia o mesmo dizer da imensidão do céu mas era para o mar que a gravidade puxava o olhar. Sob as miríades de centelhas que dardejavam no dorso das ondas havia todo um mar de morte pleno de vida que sendo desconhecido era também parte de nós. Era a parte de nós que todos desconhecemos e cuja viagem ao seu encontro se revelava sempre impossível ou nada mais do que uma fantasia inacabada. De facto quem aguentaria tal viagem?

sábado, 11 de Outubro de 2014

Um dia depois de acordar - 5

Com a proximidade do mar surge sempre um certo e inexplicável sentimento de felicidade. Algo tão simples como o adivinhar do vento que puxa o barco através do mar cintilante sob um céu azul. Fossem os lábios velas de outros lábios sob o olhar azul do céu… Mas nem tudo o que um homem vê se descodifica numa linguagem que é própria ao desejo. Nem tudo o que um homem vê é passível de se codificar através da linguagem. Há muito ainda sob a superfície desse oceano que fica para além da compreensão.

Incompreendidos ficamos então ao sabor do sentimento dos outros. Incapaz como é a razão só ao sentimento se vota a vontade de ficar ou de partir. Só isto nos diferencia do mar e  dos pinheiros. Conforme se molda o nosso sentimento assim ficamos ou partimos para outros lugares e outros momentos. Só o que se sente importa e só o que se sente é passível de ser razoável. Mas acima de tudo aquilo que se sente é o que nos move e o que nos motiva.

Ao longe percorrendo vagarosamente o horizonte o pequeno veleiro é um hino à imponderabilidade do destino. Talvez nem exista um destino. Talvez só o acaso reine no reino do vento.

sexta-feira, 10 de Outubro de 2014

Um dia depois de acordar - 4

Caminhando ao longo da calçada de pedra sentindo o sol e o vento e vendo o oscilar lento e harmonioso dos pinheiros dir-se-ia que a vida poderia ser só isto. Talvez a felicidade seja só a seiva resinosa dos pinheiros misturando o seu odor com o do sal do mar. Talvez pudesse ser só isto. Mas é suposto que sejamos o que somos como uma forma de fugir a sermos pinheiros. Uma fuga incompreensível daquilo que mais buscamos e um engano compreensível próprio de quem vive de acordo com o desejo. E é talvez tão certo quanto controverso que sem desejo se não viva efectivamente.

Ou talvez estejamos condenados a ser como o mar de onde fugimos também e cujo som se não distinguia ali do sussurrar do vento. Como o mar cuja superfície tão pouco revela sobre o que se esconde nas profundezas. Como o mar que tantos adoram aflorar na sua mais tangível superficialidade e que tão poucos ousam explorar a fundo… e quantos desses tão poucos se perdem para sempre ao fazê-lo. Cada um de nós é como um oceano perigoso e fatal que poucos ou nenhum podem navegar sem naufragar.

No horizonte surge de súbito um barco à vela.