sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Os sulcos da saudade

De mãos abertas sob o relento, apercebo-me de como o seu vazio se tornou diferente depois de todo este meu passar do tempo. É que trago a minha saudade imensa impressa na palma das mãos de uma forma tão profunda que é como se estes sulcos tivessem sido um dia, não rios vazios, mas, os rios transbordantes por onde correram todos os meus efémeros momentos de felicidade. Sob o relento, tudo isto que agora lembro é como que um espelho onde eu me vejo feito sulco ou como a mera memória de um qualquer momento que, dia a dia, se esvazia em direcção ao esquecimento.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

The nearness of you

As I sit in here alone
I realize that I don’t miss neither
the tenderness in your eyes
nor the soft skin of your thighs.

I don’t even miss dancing,
or kissing, or fucking you,
or holding you tightly
as I lay quietly by your side.

Though we were but a moment
I have gathered so much
of all of this that is you

that I can´t really miss
one single thing…

…except, maybe, the nearness of you.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Mais um adeus

E tudo o que eu sou é só esta memória
de alguém que se reflecte nos teus olhos,
um certo sabor de lábios, ainda amargos,
mas cuja doçura floresce já por entre os
cabelos negros que se entrelaçam nos
meus dedos.

É que amanhã já não há. Todo o meu mundo
se acaba e se redesenha em mais um adeus.

E nada mais fica de mim do que esta memória
do que eu fui reflectido nos teus olhos,
daquilo a que me soube o sabor do amor
ainda antes de o amor se colar
aos nossos lábios, aos nossos corpos,
e nos abraçar.

E amanhã o que haverá? Todo o meu mundo
e tudo o que eu fui para ti para sempre teus.

sábado, 29 de novembro de 2014

Sob a sombra de uma acácia em flor

Sob a sombra de uma acácia em flor
floriu um outro sorriso que,
semeado num solo de dor,
está já, talvez, perdido.

É já como a flor que
nasceu de uma árvore morta,
vivendo da chuva, quando ela cai,
e de uma memória que já não importa.

Sobre a acácia em flor,
sorrisos de lábios vermelhos
abrem-se ao amor.

Sob a acácia em flor,
um sorriso de outros dias
hesita de dor.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Promessa

Tudo não passa de uma promessa
de um sexo que não acontece
e que, se já aconteceu, não se lembra,
mas, que, se acontecer,
que nunca se esqueça
até se esquecer.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

o toque intocável do vento

Tudo em mim é como este deserto que me rodeia
e, como no deserto, nem tudo é areia: há estas flores exuberantes
que me parecem um certo sorriso de que me lembro, há este calor intenso
que só a minha pele reconhece agora que é tarde e arrefece e há,
até, este desconcertante toque intocável do vento.

E se eu sou o deserto, és tu o vento, e esse toque intocável
é este incessante lembrar de ti que me povoa o pensamento.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

num fio invisível do tempo

num fio invisível do tempo
eu colecciono os meus dias vazios
para que não se percam nunca
e para que um dia não se diga
que perdi os meus dias
que perdi o meu tempo

não

eu guardo todos os meus dias vazios
num fio invisível do tempo
e ainda que viva esta vida vazia
nunca nada perderei deste imenso tormento

domingo, 2 de novembro de 2014

Distante

Disseram-me ontem que a minha tristeza é a distância. Mas, como pode a minha tristeza ser a distância, se a distância é um espaço entre algo que existe e, a haver em mim tristeza por qualquer distância, ela seria sempre entre mim e algo que não existe? E, se fosse algo que já não existe, seria saudade, mas, sendo algo que nunca existiu, seria só sonho; nunca distância.

Disseram-me ontem que a minha tristeza é a distância. Mas, eu sei que a minha tristeza é, só, a ausência de uma certa distância.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

simplesmente

o corpo quieto
e o olhar no horizonte
dir-se-ia que adivinho o novo dia
e que é em direcção ao futuro que se move
o pensamento

sim
porque até é vasto o oceano
e o céu sem fim

e no entanto
simplesmente
morro dentro de mim