segunda-feira, 21 de Julho de 2014

A sombra de um álamo

A sombra de um álamo
era tudo naquele momento,
salvando-me de um sol
que, morrendo, me morde.

Só a sombra, não a penumbra,
que tem de ser forte essa luz
que ameaça morder a vida,
aqui, onde não vive nenhuma.

Canto

Há, talvez, num canto qualquer da memória,
um canto silente, um contorno dormente,
tecendo-me um sonho, uma história,
que, sem o sono, se perde para todo o sempre.

É que até nos cantos dos sonhos
há sempre esta espécie de silêncio surdo
sobre aquilo de que só a memória se lembra
e que a nós soa a um mero abrir de olhos no escuro.

sábado, 19 de Julho de 2014

olho-as e vejo

olho-as e vejo
a pele morena de outrora
agora amarelecida
pela memória

os sorrisos abertos
os esgares de prazer
tudo agora perdido
tudo deitado a perder

as ânsias opressoras
dos peitos ainda tão jovens
naquele sexo de amor novo

que explodiam em êxtase
num qualquer sítio da memória
que agora passou à história

deserto

deserto
é o que eu sou
e no que me torno
aqui
por trás desta janela

lá fora chove
e mil gotas de chuva
morrem desperdiçadas
contra o vidro
e sem me molhar

sou um deserto
como se um dia tivesse sido um oceano
que se esvaziou
e onde só restou
a árida areia das lembranças

por trás desta janela
eu morro e escorro em direcção ao chão
e de encontro a ela
as lembranças escorrem
e os dias morrem

- e eu já não sonho sequer em vão -

sexta-feira, 18 de Julho de 2014

chega-me suavemente

chega-me suavemente
como um sopro
através da distância
esta ânsia

adormecer e lentamente
esquecer
começar a sonhar
e regressar à infância