domingo, 28 de Setembro de 2014

O que sou é tão frágil

O que sou é tão frágil que não entendo esta sempre presente vontade de destruir quem sou. Como um insecto empalado numa agulha, dissecado superficialmente, exposto numa vitrine privada de um qualquer lugar sombrio, nem assim serei imune a essa sempre presente vontade de me exterminar e expurgar da memória.

A haver um desígnio na existência de cada um, o meu é, sem dúvida, o esquecimento.

quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

Há no escuro um segredo

Há no escuro um segredo que só eu sinto. No silêncio dos olhos fechados ecoa a canção de um outro mar que me embala e me afoga. Há na sensação da escuridão um frio que fica ao dissipar-se o calor de outra pele. E num segundo do tempo perco para o vento os lábios que já não lembro.

terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Balanço

É disto feita a minha noite,
de um brilho ténue e sombrio
sobre o mar calmo e sobre o porto.

E tal como os navios me movo
nesta espécie de balanço sem encanto,
ora adejando vivo, ora adornando morto.

segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Sonhos, são só sonhos

O ar toca-lhe a pele e despe-a do calor doce que sinto ao adormecer-lhe no colo. O céu azul não me olha; a sua íris negra perscruta no horizonte algo que só se descobre aqui dentro. Mas, nesse momento, um arado de suavidade revolve o meu baú de sonhos e, vindo do horizonte, um sorriso parece despontar ao longe, talvez, só para mim. Cai, então, sobre mim o brilho, cai sobre mim o céu, caem sobre mim cabelos com o suave aroma da aveia, lábios silenciosos dizem-me que estão perdidos nos meus lábios perdidos e tudo em mim se desfaz em pequenos grãos de areia fina que o vento revolve enquanto o beijo se dissolve…

Sonhos, são só sonhos, são só sonhos de sonho que sonho ao adormecer.

domingo, 21 de Setembro de 2014

Um certo vazio

Um certo vazio, nem muito grande, nem muito frio. Só um certo vazio sem alma que comigo se deita todos os dias na cama. Só, este certo vazio acompanha-me nos meus dias sem fim e, quando nada mais me toca, só o vazio se mantém sempre dentro de mim.

Agora, que me lembro, só um certo vazio foi sempre certo com esta leve tristeza sempre por perto.

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

A alma em mim

Como posso eu ser ainda parte deste corpo que destruí? A ruína da alma desmoronou-se sobre si mesma num ruir sem fim e, ao fim da noite, a sua sombra esconde-se no escuro e habita em mim.

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

À noite, a escuridão do mar profundo

À noite, a escuridão do mar profundo é replicada no céu nocturno. Ao largo, o mar salgado sabe às lágrimas da mulher que morreu ao meu lado. Amanhã, talvez seja o amanhã a partir do qual não haverá mais amanhãs. Hoje, mais um dia passou sem sabor, tal e qual como o de ontem e os outros dias que passaram sem amor.

E isto é tudo. Tudo, e sabe a nada.

domingo, 14 de Setembro de 2014

São ideias que me rodeiam

São ideias que me rodeiam como se fossem fantasmas de dias passados. Promessas de doçura que me azedaram nas mãos quando dou comigo a querer o dia como se já não tivesse sido perdido. Fátua fantasia que me envolve como um nevoeiro denso que em si mesmo se faz crer ser a salvação para a solidão com que me fere. Sob os meus pés o chão é tão falso quanto o é o céu de olhos assim. E um dia mais morre dentro de mim…